quarta-feira, 3 de fevereiro de 2010

“O tempo é o maior tesouro de que um homem pode dispor; embora inconsumível, o tempo é o nosso melhor alimento; sem medida que o conheça, o tempo é contudo nosso bem de maior grandeza: não tem começo, não tem fim; é um pomo exótico que não pode ser repartido, podendo entretanto prover igualmente a todo mundo; onipresente, o tempo está em tudo; existe tempo, por exemplo, nessa mesa antiga: existiu primeiro uma terra propícia, existiu depois uma árvore secular feita de anos sossegados, e existiu finalmente uma prancha nodosa e dura trabalhada pelas mãos de um artesão dia após dia; (...) rico não é o homem que coleciona e se pesa no amontoado de moedas, e nem aquele, devasso, que se estende, mãos e braços, em terras largas; rico só é o homem que aprendeu, piedoso e humilde, a conviver com o tempo, aproximando-se dele com ternura, não contrariando suas disposições, não se rebelando contra seu curso, não irritando sua corrente, estando atento para o seu fluxo, brindando-o antes com sabedoria para receber dele os favores e não a sua ira; o equilíbrio da vida depende essencialmente deste bem supremo, e quem souber com acerto a quantidade de vagar, ou a de espera, que se deve pôr nas coisas, não corre nunca o risco, ao buscar por elas, de defrontar-se com o que não é (...) pois só a justa medida do tempo dá a justa natureza das coisas, não bebendo do vinho quem esvazia num só gole a taça cheia; mas fica a salvo do malogro e livre da decepção quem alcançar aquele equilíbrio, é no manejo mágico de uma balança que está guardada toda a matemática dos sábios, num dos pratos a massa tosca, modelável, no outro, a quantidade de tempo a exigir de cada um o requinte do cálculo, o olhar pronto, a intervenção ágil ao mais sutil desnível (...) não se profana impunemente ao tempo a substância que só ele pode empregar nas transformações, não lança contra ele o desafio quem não receba de volta o golpe implacável do seu castigo; ai daquele, mais lascivo, que tudo quer ver e sentir de um modo intenso (...): acaba por nada ver, de tanto que quer ver; acaba por nada sentir, de tanto que quer sentir; acaba só por expiar, de tanto que quer viver; cuidem-se os apaixonados, afastando dos olhos a poeira ruiva que lhes turva a vista, (...) afinal, que força tem o redemoinho que varre o chão e rodopia doidamente e ronda a casa feito fantasma, se não expomos nossos olhos à sua poeira? é através do recolhimento que escapamos ao perigo das paixões, mas ninguém no seu entendimento há de achar que devamos sempre cruzar os braços, pois em terras ociosas é que viceja a erva daninha: (...) bastando que sejamos humildes e dóceis diante de sua vontade, abstendo-nos de agir quando ele exigir de nós a contemplação, e só agirmos quando ele exigir de nós a ação, que o tempo sabe ser bom, o tempo é largo, o tempo é grande, o tempo é generoso, o tempo é farto é sempre abundante em suas entregas: (...) em tudo ele nos atende, mas as dores da nossa vontade só chegarão ao santo alívio seguindo esta lei inexorável (...) é através da paciência que nos purificamos, em águas mansas é que devemos nos banhar, encharcando nossos corpos de instantes apaziguados, fruindo religiosamente a embriaguez da espera no consumo sem descanso desse fruto universal, inesgotável, sorvendo até a exaustão o caldo contido em cada bago, pois só nesse exercício é que amadurecemos, construindo com disciplina a nossa própria imortalidade, forjando, se formos sábios, um paraíso de brandas fantasias onde teria sido um reino penoso de expectativas e suas dores”

Raduan Nassar, in: Lavoura Arcaica

sábado, 16 de janeiro de 2010

"Satânico é meu pensamento a teu respeito, e ardente é o meu desejode apertar-te em minha mão, numa sede de vingança incontestável peloque me fizeste ontem.
A noite era quente e calma e eu estava em minha cama, quando, sorrateiramente, te aproximaste.Encostaste o teu corpo sem roupa no meu corpo nu, sem o mínimo pudor! Percebendo minha aparente indiferença, aconchegaste-te a mim e mordeste-me sem escrúpulos. Até nos mais íntimos lugares. Eu adormeci. Hoje quando acordei, procurei-te numa ânsia ardente, mas em vão. Deixaste em meu corpo e no lençol provas irrefutáveis do que entre nós ocorreu durante a noite. Esta noite recolho-me mais cedo, para na mesma cama te esperar. Quando chegares, quero te agarrar com avidez e força. Quero te apertar com todas as forças de minhas mãos. Só descansarei quando vir sair o sangue quente do seu corpo.
Só assim, livrar-me-ei de ti,pernilongo Filho da P.!!!!"

Drumond

domingo, 8 de novembro de 2009

Foge de nós as palavras que poderiam fazer com que tudo que dissemos faça sentido.

quarta-feira, 21 de outubro de 2009

"Por quê? Será porque aquilo que foi belo se torna frágil para nós em retrospectiva, por esconder verdades sombrias? Por que a lembrança de anos felizes de casamento se estraga quando se revela que o outro tinha uma amante durante todos aqueles anos? Será porque não se pode ser feliz em tal situação? Mas a pessoa era feliz! Às vezes a lembrança não é fiel a felicidade quando o fim foi doloroso. Será porque a felicidade só vale quando permanece para sempre? Será porque só pode terminar dolorosamente o que foi doloroso de modo inconsciente e inevitável? Mas o que é uma dor inconsciente e invisível?"

Bernhard Schlink - The reader

segunda-feira, 28 de setembro de 2009

Cantar. Sorrir. Cortar. Brincar. Cheirar. Correr. Flertar. Amanhecer. Tomar. Voar. Machucar. Andar. Vir. Esquecer. Molhar. Sentir. Apaixonar. Parar. Chorar. Falar. Beijar. Olhar. Fechar. Abraçar. Virar. Escutar. Perder. Crescer. Aguentar. Tocar. Esfriar. Esquentar. Montar. Adiantar. Decifrar. Concluir. Ir. Começar. Descansar. Adiar. Mandar. Esperar. Anoitecer. Brilhar. Pintar. Ler. Girar. Entrar. Sonhar. Sair. Chegar. Observar. Gritar. Lavar. Viajar. Escrever. Alcançar. Receber. Namorar. Atualizar. Ter. Levitar. Usar. Poibir. Comprar. Beber. Ganhar. Secar. Agrupar. Responder. Convidar. Tirar. Repetir. Acabar. Chamar. Sofrer. Esconder. Seduzir. Querer. Imaginar. Acreditar. Encontrar. Distrair. Apagar. Amparar. Assistir. Nascer. Deixar. Sufocar. Aceitar. Criar. Confiar. Tentar. E então Amar. No infinito.

sábado, 26 de setembro de 2009

No meio daquela rua movimentada, surgiu o gnomo com um girasol azul na mão. Sorridente, se aproximou de uma senhora que passava e ofereceu o girasol. A senhora, porém, continuou seu caminho para o nada, ignorando que gnomos existissem e que o girasol não poderia ser azul. Tivesse o gnomo me oferecido o girasol. Eu o teria aceitado.

segunda-feira, 21 de setembro de 2009

Alguns minutos podem ser vazios.
E também surpreendentes.
O calor ultrapassa às nuvens, seja de quem forem...
O verão vem mais uma vez
E em uma constante, os mesmos acontecimentos: uma viagem, uma mudança, uma paixão desbotada.
O tempo esquece o que ontem foi feliz.
A memória e o tempo em contraste.
É difícil a escolha entre o frio e o calor.
Vamos retomar a serenidade.
Aquela chuva no rosto nos une.
Corremos.